Face às questões colocadas pelo Professor, a equipa entendeu dividir as pesquisas. Escolhi debruçar-me sobre as três primeiras perguntas.
I. Quais os paradigmas em que se pode inserir a investigação educacional?Consideremos a existência de três paradigmas:
O paradigma positivista/normativo (hipotético-dedutivo, quantitativo, empírico-analista ou racionalista)- este tipo de investigação assume a existência de uma realidade única, independente de quem a estuda. Os problemas estudados tendem a reflectir a necessidade de explicar, descrever ou prever e pretende-se encontrar um padrão generalizador, assente numa amostra significativa de elevado grau de confiança, que permita, através dos resultados quantitativos e objectivos obtidos, determinar a validade ou não da hipótese inicial.
O paradigma interpretativo - a investigação assente neste paradigma envolve uma abordagem interpretativa onde a sociedade é encarada como produto da acção humana. O problema foca-se na exploração de um processo, acontecimento ou fenómeno concreto sem pretender fazer generalizações. O investigador envolve-se na investigação e adopta uma postura aberta que lhe permita adaptar a investigação a novas situações com que se possa deparar no decurso da mesma. Com base nos dados qualitativos recolhidos, tenta dar sentido (interpretar) os fenómenos em função dos significados que as pessoas lhes atribuem.
O paradigma sócio-crítico visa uma consciência emancipatória na qual o conhecimento se constitui como o caminho para a libertação humana. A investigação processa-se a uma escala pequena, assume um carácter prático, orientado para a acção e onde o investigador se constitui como parte integrante da investigação.
A tese dada a analisar, assente no paradigma qualitativo, poderia querer estudar quantas escolas implementam hoje programas de portefólios electrónicos como instrumentos de avaliação ou como reguladores da aprendizagem dos alunos e essas questões estariam mais relacionadas com o paradigma quantitativo...
II. Quais as grandes diferenças entre investigação quantitativa e qualitativa?
Considere-se o esquema seguinte (por vezes uma imagem vale mais do que mil palavras). Julgamos que a resposta às questões 1 e 3 engloba as diferenças entre investigação qualitativa e quantitativa.
III. Que métodos se podem definir em investigação educacional?
Consideremos dois métodos http://www.youtube.com/watch?v=vmulkCjHqqw
Quantitativo: intimamente ligado à investigação experimental; pressupõe a observação de fenómenos, a formulação de hipóteses, o controle de variáveis, a selecção aleatória dos sujeitos da investigação (amostragem), a verificação ou rejeição das hipóteses mediante uma recolha rigorosa de dados, sujeita a análise estatística e utilização de modelos matemáticos para testar as hipóteses. O objectivo principal é a generalização dos resultados a uma determinada população em estudo a partir da amostra. Estabelecem-se relações de causa-efeito e a previsão de fenómenos. A investigação quantitativa implica um plano de investigação estruturado, no qual os objectivos e os procedimentos estejam pormenorizadamente indicados. O plano deverá ser precedido de revisão de literatura pertinente, essencial para a definição dos objectivos, formulação de hipóteses e definição de variáveis. Numa investigação experimental ou na caracterização estatística de uma determinada população (através de entrevista estruturada ou inquérito por questionário), selecciona-se uma amostra representativa da população em estudo para que os resultados se generalizem a essa mesma população, o que implica a selecção aleatória dos sujeitos da investigação. Para a testagem de hipóteses (verificação ou rejeição) existe uma grande variedade de testes, como o teste t, de Mahn-Whitney, análise de variância... A principal limitação do método quantitativo em Ciências Sociais está ligada à complexidade do fenómeno estudado, ou seja, a complexidade do ser humano, que dá origem a diferentes respostas, grande número de variáveis (de controlo difícil) ou subjectividade do investigador.
Qualitativo http://www.youtube.com/watch?v=qZy666YBwFk: neste método o investigador desenvolve conceitos e tenta chegar à compreensão dos fenómenos a partir de padrões provenientes de uma recolha de dados. É conhecido como um método "indutivo". Por outro lado, é também um método holístico - o investigador tem em conta a realidade global: os indivíduos, grupos ou situações não são reduzidos a variáveis, mas vistos como um todo, existindo sensibilidade ao seu contexto (actos, palavras, gestos). É ainda um método naturalista, dado que a fonte directa dos dados são situações consideradas naturais. O investigador interage de forma discreta, misturando-se com os sujeitos, procurando controlar os efeitos que provoca e avaliar os dados que recolhe. Procura-se compreender os sujeitos a partir de quadros de referência desses mesmos sujeitos. O significado do outro assume grande importância. Assim, o método qualitativo é humanístico (não se reduz a palavra e os actos a uma equação). Há maior interesse pelo processo de investigação do que pelo resultado ou produto de dela decorre. O plano de investigação tem de ser flexível: não "cabe" numa forma rígida. O método qualitativo é rigorosamente descritivo e resulta directamente dos dados recolhidos, tais como transcrições de entrevistas, documentos escritos, registos. O investigador é o instrumento de recolha de dados e este será, porventura, o maior problema da investigação qualitativa. As técnicas mais usadas em investigação qualitativa são a observação participante, a entrevista em profundidade e a análise documental.
Acrescentei na wiki uma tabela com algumas diferenças entre métodos qualitativos e qualitativos, consultada em http://www.orau.gov/cdcynergy/demo/Content/phase05/phase05_step03_deeper_qualitative_and_quantitative.htm.
Utilizar uma combinação de métodos (triangulação, como definida por Denzin em 1978) pode alcançar resultados mais seguros, o que implicará, no entanto, mais tempo e exigirá maior experiência do investigador.
Do fórum que se seguiu à elaboração dos fluxogramas (Planear uma investigação) destaco dois posts que coloquei a 27 de Outubro e 3 Novembro 2010, na medida em que reflectem exactamente o que penso acerca do assunto: o ponto de partida será sempre uma pergunta (que se pretenderá ver respondida) e as etapas podem, devem e são certamente reformuladas ao longo duma investigação. Esta ideia pareceu-me consensual ao longo do fórum.
Segundo Thomas Kuhn (1962) um paradigma é uma forma de ver o mundo aceite num dado momento por uma dada comunidade científica.Os paradigmas são teorias ou modelos de referência que norteiam os procedimentos. Deste modo, são os paradigmas que definem os métodos a usar. Contudo, o paradigma não se traduz apenas pela definição metodológica; ele afecta a forma como se coloca o problema, o tipo de dados a recolher, a forma como se tratam esses dados e, inclusive, as próprias conclusões. Assim, os métodos dizem respeito a um conjunto de regras, usadas de forma racional e sistemática com o objectivo de atingir um fim e são definidos pelo paradigma que o investigador utiliza, mas...
Das leituras e pesquisas efectuadas, não parecem existir grandes dúvidas quanto à identificação dos paradigmas em investigação educacional: o quantitativo/normativo, o qualitativo/interpretativo e o sociocrítico (Cohen, Manion e Morrison 2007). Caberá aos investigadores decidir qual o paradigma que melhor se adapta ao problema que levantaram e para o qual procuram conclusões relevantes. A co-existência de paradigmas não será factor a desprezar, dado não existirem barreiras intransponíveis entre eles. O paradigma sociocrítico transpõe o sujeito objectivo que estuda fotograficamente a realidade (paradigma quantitativo ou positivista) ou o sujeito empenhado que interpreta os factos reais que vê (paradigma qualitativo ou interpretativo).1 Enquanto o paradigma sociocrítico age sobre a realidade, tentando modificá-la, os outros dois captarão sobretudo o exterior daquela. O quantitativo revela-se um paradigma muito técnico, metodologicamente rigído e o qualitativo uma interpretação da acção humana. O sociocrítico pretende interferir e alterar a sociedade quanto ao problema levantado. Todos têm limitações, mas escreverei sobre elas mais tarde ou alguém o fará por mim .
1 Vieira, P. http://www.scribd.com/doc/2171020/Paradigma-sociocritico-PV
Se me faltasse uma ou mais fases (ou se isso acontecesse a um colega), das 2 uma: ou me atirava ao Tejo ou ao trabalho - tudo dependeria da disposição (se fosse eu a visada) ou da vontade do colega em resolver a situação. Julgo que todas as fases são importantíssimas, mas tenho a certeza que falhar uma ou outra, na fase inicial, não seria dramático. Todos (ou quase todos) vamos apresentar um projecto e ele terá inevitavelmente lacunas, que procuraremos corrigir com as sugestões do Professor que nos orientar. Dum facto tenho a certeza: sem pergunta de partida o plano dificilmente se constrói... mas suponho que um plano possa sempre ser reestruturado. Em última instância é sobre isso que temos vindo a discutir no fórum e é um pouco isso que os fluxogramas demonstram.
Gostei imenso da 1ª tarefa e do 1º fórum, de todo o trabalho em equipa e posterior revisão mediante o trabalho das restantes equipas, que sumariei assim: verifica-se que as equipas tentaram clarificar o seu ponto de vista. De forma resumida, os fluxogramas baseiam-se fundamentalmente no paradigma interpretativo/construtivista, embora tenha existido a preocupação de apresentar ambos os métodos (qualitativo e quantitativo) como co-existentes em determinada fase da investigação, sobretudo nas equipas Metódicos e Poirot. Já no fluxograma da equipa e-Curiosos, embora tenha gostado da clareza do esquema, pareceu-me que separam a utilização dos 2 métodos, que apenas se ligarão na fase da concepção. Parecem-me menos rígidos, mais abrangentes e visualmente mais completos e perceptíveis os fluxogramas dos Metódicos e Poirot.
Aqui introduzi um quadro-resumo que encontrei em Knipe, S. & Nackenzie, Noella. Research dilemmas: Paradigms, methods and methodology Issues In Educational Research, Vol 16, 2006

